#17: a caixa de formigas
quando eu penso no meu segundo semestre de 2023, penso nas formigas-carpinteiras.
foi bem tímido, a princípio. um dia, limpando o quarto, um ninho de formigas atrás da cama. ok, aspirador, veneno. sempre morei em uma casa com quintal, então preciso sempre tirar as formigas de dentro da casa, da ração das cachorras, da cozinha. às vezes penso no subsolo da minha casa como um formigueiro-condomínio de cabeça pra baixo, igual em bee movie, um filme que não fala de formigas.
elas começaram a aparecer aqui e ali, empesteando meu inconsciente ao mesmo tempo. evitava comer no quarto, mas não conseguia dar cabo da bagunça. nessa época eu não dormia direito, acordava me coçando. pensava em tirar todas as coisas do meu quarto e lavar com mangueira, rodo e sabão, mas isso dá muito trabalho.
as formigas-carpinteiras são as principais pragas da arborização urbana II, segundo o primeiro resultado do google que dá pra um site com uma formatação muito datada. elas nidificam todos os buracos que se pode pensar. elas entram em árvores vivas e também mortas, elas fazem ninhos principais e ninhos satélite. existem duas mil espécies de formiga no brasil e só 1% é considerada praga. olhando num fundo azul com zoom enorme aplicado, uma pequena formiguinha pode parecer até que acena pra mim.
sem conseguir dormir uma noite, encontrei as culpadas dentro de uma caixa de papelão, dentro do guarda-roupa. a caixa estava cheia de papel pardo que eu tinha separado pra fazer capas de caderno mas, a essa altura do campeonato, faziam seis meses que eu não fazia uma caderneta sequer. e daí as capas se foram pra sempre numa nuvem de inseticida.
a caixa de formigas aterroriza minha cabeça há muito mais tempo que ela passou aterrorizando meu quarto. penso em como os ovinhos e os corpinhos se aninharam entre os papéis e penso que afinal de contas a preposição está correta, a finalidade da caixa era essa. durante os meses em que a caixa era tangível, eu sentia formigas subindo nas minhas pernas sempre que deitava pra dormir. agora que ela mora na minha cabeça, sinto todas as coisas do meu quarto prestes a cair sobre mim a qualquer momento, a pilha de livros quebrando minha mesa pra sempre, os papéis jorrando pra fora das caixas e fazendo um som acusatório.
meu namorado essa semana me disse que jogou um livro fora por causa das formigas na estante dele, penso que estou contaminando a vida dele aos poucos, me surpreendo quando penso que isso é um problema. resolvo viver sem checar a fresta atrás da cama, o pé do guarda roupa, as possíveis caixas que tenho guardadas ainda. se eu chegar perto, elas vão começar a sussurrar baixinho que eu não termino nada que eu começo, que não faço mais arte, que comprei materiais pra não usar, cursos pra não escrever.
fiquei umas boas semanas embalando o a teus pés da ana cristina césar, lendo aos pouquinhos, pegando certos cacoetes de escrita. nesse sábado, bizarramente cansada e triste e com uma máquina de lavar estragada, as palavras bateram de algum jeito. comecei a pensar na ana c. como uma amiga, mas não de anos: aquela brevíssima ligação surreal que você faz com alguém numa viagem, num evento, vocês conversam por horas, trocam segredos, instagram ao final, nunca mais se falam. pensei que a prosa dela borbulhava pra fora das coisas, que nem minha caixa de formigas-carpinteiras. não consegui desenvolver esse pensamento pra além disso. mas imagino que se ela fosse escrever sobre minha situação ela ia alternar entre frases longas e curtas e terminar com uma expressão em língua inglesa ou um detalhe do espaço meio insignificante. chicletes eternos na mesa.
não paro de pensar na caixa de formigas mesmo tendo um quarto livre de insetos há alguns meses, e finalmente vejo um lado bom em não estar mais terapeutizada: não preciso achar uma explicação final para as formigas. e até tentei pesquisar o que a espiritualidade me dizia, mas cada fonte me dizia uma coisa e todos os textos cheiravam a inteligência artificial.
sei lá o que pensar das formigas. elas são todas as coisas que existem em pilhas e montes no meu quarto ameaçando me soterrar. as formigas são eu mesma, que me prolifero por meio de coisas que são um sinal de que eu não caibo mais na casa dos meus pais como elas mesmas extrapolaram a caixa. as formigas são um sinal para mim de que a minha obsessão mental - às vezes material - de controle e limpeza é uma empreitada inútil porque a vida serve para se reproduzir. as formigas são um lembrete imediato das centenas de hobbies que persegui e abandonei pois frequentemente me esqueço que além de trabalhadora eu sou pessoa.
ou talvez eu precise mesmo é aceitar o meu destino e jogar um monte de papel fora. mas se eu fizer isso, como as caixas vão criar formigas?

